Reflexões sobre o teatro infantil contemporâneo

 

 11 de Agosto de 2013 – 07:00

Teatro infantil contemporâneo se aproxima de temas delicados, textos fragmentados e mistura de linguagens para atrair a geração conectada

Por MARISA LOURES

"Cabeça de vento", a Pandorga Companhia de Teatro trabalha temas delicados para o universo infantil, como morte e luto
“Cabeça de vento”, a Pandorga Companhia de Teatro trabalha temas
delicados para o universo infantil, como morte e luto
"Esperando Gordô" não apresenta situação central e nem personagens bem delineados

“Esperando Gordô” não apresenta situação central e nem
personagens bem delineados
Entre o terror e o humor,

Entre o terror e o humor, ‘Era uma vez … irmãos Grimm’ é voltado
para crianças e adultos

Em meio à dor da perda de um pai muito amado, sensação pungente e desestabilizadora, Léo encontra conforto na memória e na fantasia. Suas aliadas num instante de solidão e redescoberta de si mesmo o levam a ter contato com o cientista e inventor norte-americano Benjamin Franklin, com a guerreira e rainha chinesa Fu Hao e com Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra. O encontro se dá no sonho ou na realidade? Na caixa cênica, os dois mundos se misturam. À criança, pequena espectadora, que tem diante de si o delicado e angustiante tema do fim da vida humana, cabe encontrar resposta (ou não) para esse questionamento. “Cabeça de vento”, espetáculo voltado para o público infantil, apresentado, recentemente, em Juiz de Fora, pela Pandorga Companhia de Teatro, do Rio de Janeiro, dentro da programação do projeto “Diversão em cena”, introduz a garotada a assuntos, à primeira vista, estranhos ao universo pueril, como afeto, família, luto e morte.

“Como diz Clarice Lispector, não devemos nos preocupar em entender, já que ‘viver ultrapassa todo entendimento'”, defende Cleiton Echeveste, diretor do grupo carioca. “As pessoas me perguntam: Por que falar sobre isso? Como falar sobre isso? Só posso dizer que não há fórmula mágica que responda ‘como’. Talvez minha melhor resposta seja: responda sensível e organicamente àquilo que lhe inquieta e busque conectar-se com sua história de vida. A criança que eu fui e que ainda sou, em grande medida, continua se sentindo perplexa e desprotegida diante da morte, como, aliás, qualquer um de nós se sentiria”, afirma o diretor, para logo alterar o rumo das indagações. “Prefiro inverter a pergunta. Por que não falar sobre isso? Se pretendo respeitar o espectador infantil e jovem, não posso falar com ele de um lugar que não um lugar de empatia, de solidariedade, de compreensão – ou, pelo menos, da tentativa de uma compreensão – do que se passa com ele. E o que se passa com ele não é, se pensarmos bem, muito diferente daquilo que se passa comigo.”

Reflexo do mundo virtual

Sob a lógica de que o dito teatro contemporâneo deve refletir a capacidade de fruição estética e temática do indivíduo do século XXI, multiplicam-se o número de montagens que fogem do tradicional enredo com final feliz. Já no século XIX, o escritor e diretor russo Constantin Stanislavski apregoava que “o teatro para crianças deve ser igual ao do adulto, só que melhor”. Em tempos em que a estética teatral não enxerga mais uma diferença nítida entre as artes, mas, sim, uma hibridização de todas as formas expressivas, as linhas que separam dança, música, contação de história, artes plásticas, cinema e teatro, já não mais existem. O novo espectador, que surge absorvido pela linguagem hipertextual das redes, acaba encontrando nos palcos de hoje uma dramaturgia que reflete a fragmentação e a falta de linearidade do ambiente virtual.

“Sou contra um certo discurso sobre uma suposta essência teatral, quase um ‘carpe diem’, que diz que o teatro tem que continuar sendo o que é, e não devese misturar com as outras artes. Na verdade, o teatro e a tecnologia estão hibridizados há muito tempo, se pensarmos no uso da luz elétrica nos palcos e no som, por exemplo. O que acontece hoje é que há uma tentativa equivocada de inserir as tecnologias contemporâneas no teatro. Muitos param uma cena para colocar um vídeo e voltam com a cena de novo. Outros colocam uma projeção enquanto a cena está rolando. Isso não é uma hibridização. São duas linguagens postas uma ao lado da outra”, observa Renato Ferracini, pesquisador do Lume Teatro, de Campinas (SP), autor de livros como “A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator” e professor do programa de pós-graduação em artes da cena, da Unicamp. “Deve-se discutir como a própria linguagem das novas tecnologias pode mudar a forma como as histórias são contadas. O problema é quando esta outra maneira de se contar é colocada dentro de uma questão moral, se esta nova forma é pior ou melhor que a antiga. Não temos que entrar em questões morais. Temos que pensar que é uma outra forma de fazer. As duas vão viver conjuntamente, assim como o livro não morreu por causa do iPad.”

Na visão de José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo Divulgação, independentemente da linha a ser seguida, o teatro infantil precisa se adequar a uma criança que é viva e que quer histórias movimentadas, sob pena de perder espectador. “Na verdade, histórias de ‘Joãozinho e Maria’ e ‘Branca de Neve e os sete anões’ também eram fortes. Falam de criança abandonada e de coração arrancado de uma forma mítica. Isso também continua encantando as crianças. O verdadeiro teatro está no homem diante do homem. Se o teatro infantil não se adequar a esse espectador inteligente, ele vai ficar para trás. Infelizmente, estamos perdendo os laços da avó que senta para contar uma história para o neto”, comenta o diretor, que acabou de assistir ao espetáculo ‘Era uma vez … irmãos Grimm’, no Rio de Janeiro. Criado pelo músico Tim Rescala e o ator José Mauro Brant, o musical transita entre o terror e o humor, sendo apresentado, sem qualquer modificação no texto, para os públicos infantil e adulto. “É um trabalho completamente contemporâneo, com muitas projeções. A história era escabrosa, e as crianças estavam completamente vidradas.”

Sem lição de moral, mas com estética assegurada

Em cartaz no interior de São Paulo, com a peça “Esperando Gordô”, uma adaptação de “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, a Cia Lona de Retalhos (São Paulo) apresenta a trama de dois vagabundos que esperam a chegada de um alguém que nunca chega. Em um determinado momento, duas palhaças tomam o lugar dos vagabundos e aguardam o visitante, que mais uma vez não aparece. Segundo Dirce Waltrick do Amarante, tradutora, ensaísta, pesquisadora de literatura infantil e professora da Universidade Federal de Santa Catarina, no artigo “O teatro infantil contemporâneo: ‘Esperando Gordô'”, enquanto aguardam, muitos dos pequenos chegam ao ponto de abandonar a plateia para ir ao encontro do ilustre protagonista. Se, para alguns estudiosos, a montagem infantil deve apresentar conflito perfeitamente delineado, história linear, com personagens bem caracterizados e uma situação perfeitamente clara, em “Esperando Gordô”, essa máxima parece ser subvertida. “Os personagens não estão perfeitamente delineados, nem a situação central da peça é perfeitamente clara. Não sei se ‘Esperando Gordô’ traz uma grande lição de moral, mas a lição estética está assegurada, pois a ‘vanguarda’ exige de seus espectadores e leitores paciência. Esse, aliás, era o conselho de Joyce a seus leitores: ‘agora paciência, paciência é tudo o que vocês precisam'”, conclui a pesquisadora no texto.

Jurada de diferentes concursos de dramaturgia e do Prêmio Zilka Sallabery de Teatro Infantil, a juiz-forana Maria Helena Kühner, autora da obra “O teatro dito infantil”, observa que a criança ou adolescente que vê o mundo sob a ótica de TV, internet, CDs e DVDs, está sujeita a uma realidade em que a informação visual da atual civilização comandada pela imagem ganha importância, gerando uma fusão de signos visuais. Neste panorama, segundo Maria Helena, nem sempre o que se vê é um trabalho pautado na qualidade. “A falta de uma dramaturgia é evidente no caso daqueles que, na ausência de respostas quanto ao que quer dizer, contentam-se com dirigir seus esforços no sentido de como dizer (como se essa dissociação fosse possível), concentrando-se no apuro e variação de recursos técnicos de todo tipo. Resultam daí espetáculos em que se veem atores com toda uma gama de recursos lúdicos/teatrais, mas cujo trabalho se dilui porque não conseguem se equilibrar no fio ou fiapo condutor de um pobre roteiro.”

Defensora de que “para se chegar a ser um adulto é preciso crescer bem”, Maria Helena opta por não fechar caminhos, mas levantar mais um questionamento sobre o futuro do teatro infantil. “A avaliação de um texto ou espetáculo destinado à criança teria, então, de partir de uma indagação específica e exigente que seria: o que podem fazer as crianças com o que lhes está sendo oferecido para organizar, interpretar, ampliar e enriquecer suas experiências? Falta ainda ao teatro e seus criadores progredir no sentido desejado e possível com trabalhos que sejam um presente para o espectador de todas as idades”, reflete. “Não há recurso em 3D, 4D ou outro recurso do qual se tenha conhecimento que substitua o encontro com o outro, diante de um outro que é vivo e pulsante, tanto quanto o próprio espectador. Angustiado, arrebatado, insatisfeito, curioso – vivo, antes de mais nada”, conclui Echeveste.


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