Esperando Gordô em São José dos Campos

Esperando Gordô está se apresentando na cidade de São José dos Campos. No dia 07 de setembro fez parte da programação do Festivale com uma apresentação muito prazerosa no Cine Teatro Santana e no próximo domingo estaremos às 15h no SESC São José dos Campos!

Veja  a crítica de Kil Abreu, um dos jurados do Festivale 2012, para o espetáculo:

Feliz espera

Crítica – Esperando Gordô (Cia. Lona de Retalhos, Santo André)

Kil Abreu

O teatro para crianças e adolescentes é uma arte difícil. Não porque faltem técnicas e teses e treinamentos que tentam intuir os meios mais interessantes para se chegar às crianças. É que em geral a técnica em si – em um mundo amplamente dominado pela eficiência como valor – parece que em geral não tem dado conta de alcançar um imaginário fugidio e em pleno movimento, este de quem está descobrindo o mundo. Não um mundo qualquer – o mundo de hoje, com os chamados que estão ali do lado de fora da janela ou no espaço imaginário de quem está experimentando perguntar coisas para a vida.

Muitos dos espetáculos a que assistimos e que têm a criança como espectador ideal tendem a cair em armadilhas recorrentes: infantilização dos atores (e, redundância, infantilização das crianças), dramaturgias idealizadas e cheias de boas intenções (mas que não dão liga em relação às expectativas dos pequenos), o excesso de didatismo que faz do teatro apêndice de uma tarefa escolar ou moral qualquer. Em outra ponta espetáculos que se apresentam como espaços livres, pautados na espontaneidade, redundam em trabalhos mal cuidados, desinteressantes, que se aproximam mais da animação que do teatro propriamente dito.

Não é regra, então, cruzar com trabalhos  cujo interesse não se vincula a nenhum ensinamento ou propósito que não esteja no próprio campo do jogo teatral.   É assim este Esperando Gordô, do grupo Lona de Retalhos, de Santo André . A inspiração em Beckett  não desvirtua a montagem. Ao contrário, a investe da mesma situação – dois sujeitos à espera de um outro, que não chega – mas a recupera em uma mudança de chave: os clowns noturnos beckettianos dão lugar a uma dupla de palhaças solares  e donas de uma brasilidade indisfarçável, ainda que isso não apareça como discurso no primeiro plano da cena.

Um Godot para crianças. Bonita aventura, que certamente só se afirma como bom teatro porque as atrizes que pensaram o projeto (Carina Prestupa, Thaís Póvoa) intuíram que o sentido da cena não prescinde da objetividade das ações e que, no caso,  é esta (a ação) o que define fundamentalmente o sentido da dramaturgia. Uma lição antiga deixada pelos velhos palhaços. É este  gosto pelo concreto da vida  o que marcou o gênio de um Chaplin e o que fez de Piolim uma referência para os modernos brasileiros dos anos 20.

A montagem  ficou um pouco prejudicada no Cine- Teatro Santana, pela acústica não muito favorável e pela distância entre palco e plateia. Ainda assim foi possível assistir a um espetáculo em que o tema do acaso (ou dos diversos acasos que preenchem a espera) não dispensa uma construção consequente dos acontecimentos. Na direção de Marcelo Gianini o bom desempenho das atrizes na criação das gags não é motivo para o abandono do mote. Há generosas doses de improviso – que incluem  excelente triangulação com a luz – mas há também uma medida justa, bem articulada, que traz a dupla de volta ao eixo da narrativa.

Um dos aspectos mais interessantes é a trilha sonora, que remete a um plano de significados muito próprio: o daquela brasilidade, que encontra eco no corpo e nas ações criadas pelas atrizes, de uma maneira que possamos dizer, ao final: são  personagens que, saídos de Beckett, parecem ter  passado pelos quintais de Suassuna antes de chegarem ao momento da cena. São referências de peso, tratadas no espetáculo de uma forma autônoma e, mais importante, em sintonia firme com a plateia. Mesmo sob um tema anti teatral por excelência, a espera,  vivenciamos momentos de um teatro vivo, e bem vivo.

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